BRASIL – Uma ex-integrante do Movimento Brasil Livre (MBL), que chegou a ser apresentada como pré-candidata a deputada federal pela sigla, é acusada de discutir durante meses a possibilidade de matar Renan Santos (Missão), coordenador do movimento e candidato à Presidência da República. As informações constam em um conjunto de 378 arquivos que incluem fotos, vídeos e, principalmente, gravações de áudio.
Nos registros, a influenciadora Glenda Varotto, conhecida como Espectro Cinza, afirma em determinado momento: “Eu quero ver o cara morto”.
O material, produzido em sua maioria entre janeiro e agosto deste ano, foi gravado por um amigo e ex-professor de inglês de Glenda. Ele relatou ter se preocupado com as menções recorrentes à violência física.
Romance não correspondido
Os arquivos revelam uma trajetória que mistura paixão, desilusão e vingança. Glenda confidencia ao confidente que desejava um romance com Renan Santos, que não correspondeu às investidas. “Não quis me comer, bem feito. Destruí sua vida (risos). Era só ter me comido. Não quis, se fodeu. É isso que acontece com todos os homens que não transam comigo”.
“Por mim, desde que ele esteja morto, eu tô feliz. Essa bosta desse cara aí pode instaurar Terceira Guerra Mundial, Terceiro Reich, sei lá, foda-se, eu só quero esse cara morto. Esse demônio. Esse fodido”, diz Glenda, de 34 anos, em uma das gravações.
Procurada, Glenda afirmou que os áudios são um mero “desabafo” sobre seu antigo local de trabalho, dito “da boca para fora”. Negou nunca ter tido intenção real de matar alguém e disse ser alvo de uma campanha de “assassinato de reputação” por parte do movimento.
Nas conversas, Glenda cita com frequência outros ex-integrantes do MBL que romperam com o grupo e hoje são detratores. “E não é só eu (que quer a morte de Renan Santos). O Ben (Pontes) quer, a Mabel (Palumbo) quer, o (Gabriel) Costenaro quer”, afirma ela em diálogo com o ex-professor.
Em uma das conversas, Glenda chega a afirmar que não ficaria muito tempo presa caso matasse Renan, por ter curso superior e ser branca. “Vamos considerar: eu tenho universidade, eu não tenho passagem na polícia, eu sou branca, eu sou boa, tipo, boazinha, eu sou inteligente, as pessoas gostam de mim, nunca fiz mal para uma mosca. Capaz de eu sair como heroína ainda que matei Adolf Hitler”, diz ao confidente.
Nos áudios, Glenda confidencia ao ex-professor que queria um “relacionamento público” com Renan. Ela conta que chegou a elaborar um “documento de conquista”, baseado no filósofo e diplomata florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527).
“Por exemplo, eu criei um documento… juro… eu criei um documento de conquista romântica / amorosa para o Renan, baseado em Maquiavel”, diz.
Segundo ela, o documento continha “dicas de roupa, acessórios, frases, simulações de diálogos, respostas… com uma bela foto de Ana Bolena na capa”. A referência é à cortesã e ex-rainha consorte da Inglaterra, que viveu entre 1501 e 1537 e foi o pivô da separação de Henrique VIII de sua mulher anterior, Catarina de Aragão.
Em mensagens de abril deste ano, Glenda conta ao amigo que se sente rejeitada por Renan. Diz que ele a “deixa no vácuo” e que a teria “humilhado” politicamente e profissionalmente.
Em outros trechos, Glenda aventa a possibilidade de acusar Renan Santos de nazismo. “Eu acho até bonitinho o jeito que eles estão interpretando o que eu realmente gostaria de fazer, né? Porque eu não queria, sei lá, só taxar ele de nazista para mandar alguém matar. Eu mesma queria matar ele, mas né?”
No dia 27 de agosto deste ano, Renan Santos apresentou uma notícia-crime contra Glenda à Polícia Federal em São Paulo. Na peça, a defesa dele pede à PF que instaure inquérito para apurar os fatos, com perícia do material enviado e oitiva dos envolvidos, entre outras medidas. O caso tramita em sigilo.
Procurado, Renan Santos afirmou que a Polícia Civil de São Paulo e a PF instauraram inquérito para apurar os fatos. “Tomamos conhecimento de uma rede criminosa que atua desde 2024 para imputar crimes de nazismo, racismo e misoginia contra mim e outros membros do MBL/Missão. Um dos objetivos deles é que, com isso, eu seja morto. Enviamos essas informações à Polícia Civil e à Polícia Federal, que instauraram inquérito para apurar”, disse.
“Vale lembrar: essa senhora tentou de várias maneiras me seduzir, sem sucesso. Tentou se relacionar comigo, interferir em relacionamentos pessoais e, tão logo percebeu que não teria sucesso, optou por montar uma quadrilha visando destruir minha reputação, campanha e honra. É uma pessoa má que precisa de tratamento”, declarou o candidato.
Glenda Varotto disse que deixou o MBL em abril de 2026 após uma reunião “surpresa”, na qual afirma ter sido acusada de “inúmeros absurdos”. Ela diz ainda que foi pressionada a assinar documentos para viabilizar uma saída “pacífica” do movimento.
Segundo ela, esse acordo não foi respeitado. Após seu desligamento, dirigentes e apoiadores do movimento passaram a atacá-la publicamente. Ela diz que foi alvo de acusações falsas e de ataques coordenados para destruir sua reputação.
Sobre os áudios, Glenda afirma serem desabafos privados feitos a um amigo em meio ao desgaste emocional causado pelo conflito com o MBL. Sustenta que as falas foram ditas “da boca para fora” e não refletiam intenções reais de assassinar Renan Santos.







