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Home Justiça

Preso por estupro, padre diz ter ‘dom’ para reconstituir virgindade

Expressoam Por Expressoam
21 de agosto de 2017
no Justiça, Mundo, Segurança
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Brasília – Um padre preso no interior de Goiás por supostos abuso sexual e compartilhamento de pornografia infantil confessou, em depoimento ao Ministério Público (MP), a prática em pelo menos cinco casos e atribuiu os atos a um “dom” para “santificar” partes do corpo feminino como rosto, seios, nádegas e vagina. Segundo o relato do acusado, que atuava em Caiapônia, a 335 quilômetros de Goiânia, o “dom” incluía a possibilidade de reconstituição da virgindade a partir do toque na vagina das vítimas.

O padre Iran Rodrigo Souza de Oliveira foi preso no último dia 16, por determinação da Justiça, a pedido do MP de Goiás. Policiais também cumpriram mandado de busca e apreensão na casa do suspeito na paróquia e recolheram computador, arquivos eletrônicos e celular. Na sexta-feira, 18, o religioso, de 45 anos, prestou depoimento ao promotor Danni Sales Silva, por mais de cinco horas.

– O número de vítimas é inquantificável. Agora tem uma fila de pessoas para dar depoimento. O advogado dele disse que vai levar de 20 a 30 casos de ‘milagres’. Na paróquia, apreendemos vídeo pornográfico, o que mostrava que ele dissimulava a situação de sacerdote, de clérigo, para abusar sexualmente das vítimas – diz o promotor Danni, responsável pelas investigações.

Primeiro, no depoimento, o padre reconheceu ter trocado mensagens com vítimas via Whatsapp. “Antes de tudo, o depoente gostaria de expor que tem um ‘dom'”, cita a transcrição do depoimento. “Em oração, teve uma inspiração. Em unção percebeu que rosto, seio, nádegas e vagina, tudo faz parte de um mesmo corpo e que é possível a santificação destas áreas específicas do corpo tanto pela oração, quanto pelo toque”, continua.

O toque com as mãos deve ocorrer “dependendo da gravidade física ou espiritual da dor que assola a pessoa”, segundo Iran. Há três anos, conforme o depoimento, o padre identificou que poderia exercer seu “dom particular” por meio do Whatsapp. “Recebia diversos pedidos de intervenção de outras cidades, e decidiu intervir pelo Whatsapp. Quando o pecado dizia respeito a uma relação extraconjugal ou pecado de carne o depoente, por vezes, pedia para ver partes do corpo desnudas, inclusive a vagina aberta porque, assim, poderia dar a benção e a santificação através de uma oração”, registra o termo de declaração ao MP.

O padre não soube dizer em quantas mulheres e adolescentes ele tocou a vagina: “Já interveio por muita gente e não sabe dizer o número.” Essas pessoas tinham “problema de carne”, conforme o religioso, e uma das vítimas precisou ser tocada porque “isso decorre da eucaristia”. “A eucaristia é um mistério pois o pão e o vinho, com a imposição das mãos e a oração, se transformam em corpo e sangue de Cristo. Que por isto o depoente crê que as mãos têm o poder de transmitir a graça pela unção.”

À esquerda, o padre Iran Rodrigo Souza de Oliveira – Divulgação

Uma das vítimas havia “pecado” por ter estado com um homem numa festa. Ele buscou o padre para confessar, na paróquia de Caiapônia, sempre conforme o relato dele ao MP. “O depoente perguntou se ela gostaria de receber a benção e santificação e, assim, fez o sinal da cruz tocando os seus olhos, cabeça, coração, seios, vagina. Para esse processo de santificação foi necessário que ficasse pelada”, cita o depoimento. Ele pedia fotos das vítima nua, com o consentimento da mãe, segundo o padre.

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No caso de outra vítima, Iran estabeleceu a necessidade de três encontros para se restabelecer a virgindade, na própria paróquia da igreja na cidade, conforme o depoimento. “O depoente tocava na vagina pela parte externa fazendo o sinal da cruz.” Ele negou ter introduzido o pênis na vítima.

O MP suspeita da atuação de um grupo de oração no abuso sexual a vítimas, e questionou Iran sobre a suposta atuação do grupo. “Este grupo reconhece o dom da santificação pelo toque”, disse. No caso de pornografia infantil, o padre reconheceu ter recebido fotos de uma criança de 11 anos nua, “enviadas pela própria mãe da criança”. A menina estava com “fluxo menstrual muito forte e desregulado”, e partiu do padre o pedido das fotos, conforme o depoimento.

A suspeita do MP é que pelo menos uma vítima tinha 14 anos de idade quando houve o suposto abuso. Os crimes investigados são violência sexual mediante fraude, com pena de dois a seis anos de prisão, e adquirir pornografia infantil, com pena de prisão de um a quatro anos.

Advogado do padre, Leonardo Couto Vilela nega que houve abuso sexual. Ele atribui a “fé” o que ocorria na paróquia:

– Os toques não tinham qualquer intenção, não havia qualquer lascívia. A mão ficava espalmada. O padre era a ponte entre a pessoa e Deus, a motivação era religiosa. Ele era um intermediador. Havia inclusive consentimento dos pais.

 

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